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BACEN – Já é tempo de estudar para o próximo concurso, afirma sindicalista

12/04/2016

É com a experiência de quem já presidiu o Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central, e hoje está na direção da unidade Rio de Janeiro da mesma entidade, que Sérgio Belsito acredita que qualquer plano de gestão da instituição bancária não poderá deixar de contemplar a realização de um novo concurso. Com um déficit acentuado, sobretudo nas carreiras de técnico e analista, o banco vai reencaminhar, até 31 de maio, seu pedido ao Ministério do Planejamento. Solicitação que, aposta o sindicalista, será certamente autorizada, se julgada na medida do bom senso.

Formado em Ciências Contábeis, Belsito ingressou no banco por meio de concurso, em 1976. Hoje analista aposentado, continua na ativa, em defesa dos interesses da instituição, de seus servidores e da sociedade como um todo. Afinal, avalia ele, todos perdem com a atuação de um Banco Central enfraquecido. O papel do BC no atual momento de crise, a mudança de escolaridade do cargo de técnico, o problema das terceirizações, caminhos para iniciar a preparação para a próxima seleção e o terreno fértil para o crescimento profissional de novos servidores são alguns dos temas abordados na entrevista a seguir.

PREPARATÓRIO PARA BANCOS - Noturno
PREPARATÓRIO PARA BANCOS - MATUTINO

FOLHA DIRIGIDA – Coincidentemente, a sua última entrevista aqui, ao jornal, acaba de completar dois anos, ocorreu em abril de 2014. De lá pra cá, o que mudou?
Sérgio Belsito –
  O que mudou foi o aumento da necessidade de o Banco Central renovar o seu quadro. Há dois anos o governo tinha uma proposta de renovação em concurso plurianual, etapas plurianuais de 800 vagas, algo por aí. Desses dois mil e poucos que deveriam entrar, entraram menos da metade, e já saíram pelo menos 15% dos dois últimos concursos. O BC é muito procurado, mas também hoje a gente vê que as pessoas que se preparam para este concurso aproveitam também os demais certames. E muitos acabam migrando para outras carreiras,  principalmente as do judiciário, que hoje estão muito atrativas.

Ou seja, apesar de haver uma política regular de concurso desde o início da década de 2000,  o BC está meio que “enxugando gelo”, sem conseguir equacionar essa questão de pessoal…
Nós estamos “enxugando gelo” há muito tempo, e temos feito esforços para a retenção e para a reposição de quadro, uma situação muito danosa. É um esforço muito grande para todo quadro que está na ativa trabalhando, e também para aqueles que esperam ter atribuições do BC bem mais próximas da sociedade, mais bem desenvolvidas e aperfeiçoadas. A cada momento de crise, como essa que nós vivemos agora, o BC é o órgão mais demandado. Nós tivemos a crise em 2008, onde mais de 90 colegas foram para o exterior fazer cursos, adaptações, e fazer propostas para vencer a crise. Hoje não é diferente. Nós temos problemas internos no país, que demandam uma quantidade muito grande de serviços do BC.

Inclusive na revisão e elaboração de políticas monetárias.
Principalmente na política monetária e fiscalização de mercados de capitais.

Agora falando especificamente de carência: o sr. teria números atualizados em nível nacional?
Em nível nacional, nós temos uma lei que permite até 6.700 servidores. O quadro atual do banco é de 4 mil funcionários.

E nós estamos falando das três carreiras: técnico, analista e procurador.
Nacionalmente, há muito tempo que nós temos uma defasagem de mais de 800 analistas, e mais ou menos a metade disso de técnicos. Os procuradores têm tido uma reposição mais regular dentro do período, mais estável. Porém, falando de analistas e técnicos, o quadro é mais grave. No mínimo, de 1 mil  a 1.500 novos concursados deveriam ser colocados no BC. Nós tivemos uma quantidade grande de aposentadorias que se realizaram mesmo dentro dos últimos quatro, cinco anos. Ficou um restinho de quase 70 pessoas com condições de se aposentar, e que podem se aposentar ainda este ano. E, no mesmo período, a reposição não chegou a 60% disso.

O número de ingresso mal dá para compensar o número de pessoas que tem deixado o banco…
E aí tem um prejuízo muito grande. A formação de um funcionário do BC demora até cinco anos. Você não tem tempo de formar esse pessoal, e a cultura vai sendo prejudicada.

O sr. atualmente é presidente do Sinal do Rio de Janeiro e , antes disso, foi por quatro vezes presidente do Sindicato nacional. Com a sua experiência, gostaria de saber: quais são as chances reais de um novo concurso para o BC ser, ao menos, autorizado ainda esse ano?
Estou muito otimista, apesar de toda crise. O país está vivendo uma fase complicada, visível financeiramente, tem também a crise política. Mas eu sou otimista, pois a demanda é muito grande. Nós temos argumentos fortes para trabalhar junto ao Ministério do Planejamento, para apontar a necessidade de reposição desse pessoal, que não foi feita nos últimos três anos. E o governo não conseguiu cumprir a sua proposta de reposição plurianual, na faixa de 800 funcionários pelo menos. O Sinal está sempre lutando para que o BC apresente e brigue, no nível governamental, por novos concursos e pela reposição de quadros.

Acredita que o Executivo mostrará sensibilidade em relação a isso?
Apesar da situação muito complicada financeiramente, eu acredito que, para o ano que vem, nós possamos ter concurso para o BC.

Para quem sonha em ingressar no banco: qual é o caminho, o que fazer agora, por exemplo? Nós sabemos que o processo de aprovação em um concurso como o do BC, que é muito disputado, não se faz do dia para a noite. Para quem já está focado no estudo, e tem o BC no radar, como área de interesse… O que esse candidato deve fazer?
Já deveria estar estudando, pois passar para o Banco Central não é fácil, e está ficando cada vez mais complicado. Isso pode demandar uma formação de concurso, de quatro ou cinco anos. Mas é fundamental que ele continue a tentar, a estudar, se preparar, pois quando sair o concurso, ele estará correndo na frente dos demais. Eu sei que é complicado você manter esse ideal, às vezes trabalhando ou estudando. Mas é fundamental que o concurseiro não deixe de se preparar. O dia em que sair o certame, será muito mais fácil. Não dá hoje para concorrer no concurso no BC estudando apenas quando sai o edital. Não dá! Essa disputa exige maior dose de preparação…

Enquanto isso, um dos caminhos é resolver provas anteriores?
Sim, ver as bancas que já trabalharam nas seleções do BC, Cespe/UnB, Carlos Chagas… Não há uma tradição de escolha preferencial por um banca. Mesmo porque, o que o banco faz é concorrência, licitação. E ele sempre evita que se mantenha a mesma banca. Essa é a linha de atuação.

Por qual razão, exatamente?
Eu acho que é mais para evitar vícios e problemas. A grande preocupação do banco, nos concursos públicos, hoje, é porque por mais correto que você seja, sempre sofre questionamentos judiciais. O questionamento judicial, ele para com o certame, atrasa a vida de todo mundo. Então, o que o BC menos quer em um concurso é que ele seja interrompido. Isso é fatal, é muito danoso para todos.

Em relação ao cargo de técnico, há um projeto de lei propondo a mudança do grau de escolaridade de nível médio completo passando para o nível superior. Como está o andamento deste processo? Qual a sua opinião a respeito dessa mudança?
A necessidade de alteração para nível superior veio em função da qualificação e da necessidade de melhoria de salário. Essa é a demanda maior porque, de uma certa forma, não se tem muito espaço para reajuste de salário do pessoal de nível médio, por que eles são comparados aos demais colegas de ministérios e tudo mais. A necessidade hoje, é de uma qualificação maior dessas atribuições. E daqueles  que entram para técnico, praticamente 95% já têm nível superior. Isso diminui um pouco a crítica de que a mudança de escolaridade vai diminuir as  oportunidades, tornar a possibilidade de acesso menos democrática. Esta demanda é antiga e somente agora, nesta negociação salarial que ocorreu durante este ano, é que ela foi acatada pelo governo. Ela ainda não é lei, isso está sendo colocado no acordo firmado, e daí a ser implementada ainda precisa regulamentar as novas atribuições entre analistas e técnicos.

Como e quando isso vai ocorrer?
Para isso foi criado um grupo de trabalho. Esse GT foi criado no papel, mas ainda não está sendo operacionalizado. A ideia é discutir isso e depois implementar essas medidas sobre a mudança de escolaridade para o nível superior, que vão alcançar salários e também as atribuições, de forma que não será imediata. Isso talvez demore mais uns dois anos, porque o tempo do governo é um tempo muito lento. Apesar que todos os colegas técnicos gostariam que isso fosse feito imediatamente.

Então, muito provavelmente no próximo concurso para o Banco Central, o técnico ainda será um cargo de nível médio?
Eu acredito que sim. Ainda mais se sair para o ano que vem, ele ainda deverá sair com o nível médio.
Futuramente, com a mudança, a função de técnico passará a exigir o nível superior em qualquer área…
Sim, qualquer área. Os analistas têm algumas áreas específicas. Mas, para o técnico, não se cogitou fazer qualquer segregação.

Obviamente, a mudança de escolaridade trará aumento no salário. A tendência é que o ganho inicial do técnico se aproxime do valor pago ao analista…
A tendência é de chegar a 60%, 70% do que ganha um analista, como é na Receita Federal, e outros órgãos que têm essa mesma disposição de carreira. Na prática, o técnico passaria hoje a receber um inicial na casa dos R$6 mil ou R$7 mil, contra os pouco mais de R$4 mil pagos atualmente.

Hoje, que tipo de servidor o BC busca em seus concursos? E o que essas pessoas que conseguem ingressar na instituição encontram em termos de condições de carreira e de trabalho?
Atualmente o BC busca, em primeiro lugar, aquelas pessoas que tenham condições, e perfis de se adaptar e desenvolver naquelas atribuições previstas. E nem sempre você entra completo. Nós temos a universidade corporativa do BC, que forma e complementa. E você consegue. dentro das atribuições do banco, correr de uma área para outra. Há cursos de mestrado, doutorado, e tudo o mais. Então, o banco busca alguém com esse perfil de se adaptar, de querer vencer e de trazer coisas novas – isso é muito importante. A cultura do banco está mudando. As crises internacionais e a crise interna trazem um desafio muito grande em todas as áreas, como, por exemplo, a fiscalização e a política monetária. Hoje você que quer ser servidor público do BC, não pode ter a mentalidade antiquada do que seja um servidor público. É como se fosse realmente estar na iniciativa privada com um trabalho de ponta para o desenvolvimento de projetos. Esse é o perfil desejado.

O fato de haver muita carência de pessoal representa, para os futuros servidores, a existência de um maior espaço para o crescimento profissional? 
Chegando ao banco com uma renovação enorme, você tem condições de ter uma carreira em qualquer área que vá, tanto na área administrativa quanto na área meio. Há muito espaço aberto para que, em quatro, cinco anos, o novo servidor possa crescer, tornando-se um bom gerente, um bom administrador.

Diante da carência significativa, existe terceirização no Banco Central?  O sindicato acompanha essa situação?
O sindicato acompanha e sabe que a terceirização não é uma boa estratégia. E, hoje, o governo quer avançar neste sentido. A nossa preocupação com a terceirização é que, justamente com a falta de concurso, aonde tem brecha o banco tenta terceirizar. Esse problema tem aparecido muito na área de informática, por exemplo, que é fundamental, de segurança. Nós temos firmas trabalhando lá como se fossem corpo do BC, funcionando em áreas específicas de processamento de dados. Temos um problema sério em um departamento importantíssimo, que é o meio de circulante, cuja a sede é no Rio de Janeiro, onde nós não temos a reposição de quadro. Não temos condições de tocar as atividades de distribuição e saneamento de recursos de moeda. Isso é altamente prejudicial, e o que o banco tem feito é tentado terceirizar a atividade para o Banco do Brasil, fazendo o serviço de custódia. Aqui no Rio de Janeiro, nós achamos que haveria a necessidade de pelo menos mais umas 80 pessoas efetivamente trabalhando, somente dentro desta atividade. O meio circulante, aqui no Rio, já teve 200 pessoas e hoje tem menos de 100 trabalhando.

Ou seja, onde não é atividade fim, a administração central do banco encontra uma brecha para terceirizar…
Até na atividade fim… A distribuição de moeda é uma das atividades do BC. Imagine os problemas de troco que nós temos e da qualidade do dinheiro que circula. Nós temos hoje um verdadeiro apelo no comércio, que dá descontos para quem apresenta moedas e cédulas de pequeno valor.

E surge o famoso mercado paralelo de balinhas. Trocos sendo pagos em balas…
Fora o problema que existe no Norte e Nordeste do país, onde a falta de troco avilta o preço da mercadoria e o joga para um patamar de valor equivalente à moda que está em circulação.E você sabe: quando o comércio precisa arredondar um valor, arredonda quase sempre pra cima…

Outra questão que chama atenção é em relação ao Rio de Janeiro. Me parece que o estado acaba sendo penalizado com uma oferta de vagas sempre aquém do que se é esperado. Como explicar isso? Há uma espécie de engenharia de regionalização quando do ingresso no BC que ajuda a entender esse fenômeno, não é? Explique isso para nós.
É o seguinte, pelo o que eu conheço das atividades no Rio de Janeiro, além desses 80 que nós fazemos um cálculo aproximado de necessidade no meio circulante, tem a parte administrativa, tem a parte de fiscalização, onde praticamente nós não temos pessoas novas, ou novos concursados. E também nós temos a deficiência muito grande na área de mesa, que seriam as operações de mercado aberto, já que o pessoal mais experiente está se aposentando. Então, eu acredito que entre 120 a 140 pessoas seriam necessárias para repor no Rio, quantidade mínima. Infelizmente, o banco optou por um processo de ingresso através da conjugação com a mobilidade, até para atender interesses dos próprios concursados. Normalmente, quem entra no BC em Brasília, ou em qualquer outro lugar, é de regional. Aí a pessoa entra em Brasília e já fica doida para ir para próximo da sua casa. Atualmente, estão sendo exigidos de dois a três anos fixos em Brasília, dependendo do concurso, e depois disso ele volta para sua região. E o Rio de Janeiro é muito disputado. Nós temos no Rio a melhor formação da área contábil e na área de fiscalização. Colegas do Rio passam em outros estados onde tem BC, e depois planejam imediatamente voltar.

Colaborou: Bruna Lima – Folha Dirigida

 

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